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terça-feira, 21 de julho de 2015

ESTA GENTE - POEMA SOFIA MELLO BREYNER ANDRESEN


ESTA GENTE    





Poema de Sofia Mllo Breyner Andresen, uma das mais importantes poetizas portuguesas do século XX, recebeu o prémio Camões em 1999, o seu corpo encontra-se no Panteão Nacional desde 2014.
Esta Gente, poema que reflecte a actualidade na zona Euro
Esta Gente
Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia" 


terça-feira, 11 de março de 2014

POEMA AO PAI - PABLO NERUDA

POEMA AO PAI -  PABLO NERUDA



Que a convivência entre pais e filhos seja como diz o poeta, um acto de pacificação, de união e amor.

POEMA AO PAI -  PABLO NERUDA


O Pai Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.

Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.

Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.

Depois... Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.

Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.

O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar... E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.

Escutarei de noite as tuas palavras:
... menino, meu menino...

E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.

Pablo Neruda, in "Crepusculário"
Tradução de Rui Lage